terça-feira


Jeff Buckley – Grace (1994)



  Jeff Buckley é um caso singular na música. À partida, poderia ter um futuro na música assegurado, em virtude da fama do seu pai, Tim Buckley. Mas sempre tentou esconder de todos as suas origens, e, até muito tarde, não demonstrou a sua voz extraordinária, manifestamente semelhante à do seu pai. Preferiu aperfeiçoar os seus dotes na execução da guitarra, o que lhe valeu o contacto com diferentes estilos musicais.

  Mudou-se para Nova Iorque, a cidade que lhe poderia trazer o sucesso que ele ambicionava. De pressa conseguiu lugar em alguns bares, com especial importância para o mítico Sin-é. As lotações esgotadas começaram a suceder-se para ver o que muitos apelidavam de next big thing.

  A (certa) passagem do bar para o estúdio aconteceu pelas mãos da Columbia. Jeff sempre soubera bem o que pretendia, e fez-se rodear de músicos talentosos a quem deu total liberdade na composição dos arranjos dos seus instrumentos, numa acção repleta de humildade, rara no meio artístico.

  Após alguns meses de gravação, surgiu Grace, e, apesar de não se ter revelado um grande sucesso comercial, o mundo da crítica musical parou. Rapidamente críticos e músico conhecidos como Bono Vox, Jimmy Page e Robert Plant se aperceberam de que Grace não era somente mais um álbum, mas sim um marco na música Folk.

  Mojo Pin é a primeira faixa do álbum. Somos confrontados com um homem que permanece entre o sonho e a realidade. Se o sonho lhe traz a ilusão da felicidade, a realidade depressa trata de acabar com ela. A guitarra parece que sempre ali esteve, a acompanhar-nos a nossa vida inteira. Esquecemos a sua existência, mas necessitamos dela. Concentramo-nos na voz de Jeff, uma voz jovem, repleta de vida mas a quem a vida já tratou de roubar a ingenuidade. Mojo Pin é um crescente de raiva e desilusão. Ele não quer chorar mais, não quer saber de mais nada, está cego e torturado pelo sofrimento.

  Grace depressa enta pelos nossos ouvidos e faz-nos recuar um pouco no tempo. Entendemos que Mojo Pin é o fim, o actual. Grace trata-se da explicação do sofrimento. Uma faixa repleta de esperança, de amor, de imortalidade. Cada palavra atinge um lugar bem fundo dentro do nosso coração, que julgávamos impossível de existir. A conjugação da guitarra com a percussão cria em nós um desejo de algo que não sabemos o que é. Resta-nos tentar descobrir se iremos encontrar o que procuramos no álbum.

  Last Goodbye é o momento comercial do trabalho. É a continuação da explicação do sucedido. É o erro que despoletou o sofrimento. O refrão em súplica interpretado por Jeff deixa bem claro os seus sentimentos. Estamos prontos para enfrentar Lilac Wine. A faixa embriagada em que a nossa personagem começa a lamentar-se pelo sucedido. O romance falhado por algo que não conseguimos compreender, mas que parece que ainda não acabou. Continua-nos a faltar algo. Este tema, irrepreensivelmente interpretado por Buckley, deixa-nos preparados e abertos para sentirmos o sofrimento atroz em que o nosso personagem está.

  So Real inicia o arrependimento, a frustração, a nostalgia, a incapacidade em conseguir suportar-se a si próprio. A sonoridade da guitarra deixa-nos numa angústia tal que nos apetece começar a chorar. A identificação com o sofrimento da personagem está prestes a atingir o clímax.

  Hallelujah, a música mais famosa do álbum, é um sonho. Tudo parece perfeito, mas artificial. É uma súplica a Deus, já que não conseguimos suportar o sofrimento. A guitarra de Jeff tem um som angelical, e, conjugada com a sua voz, parece que estamos na presença de algo que não foi composto por uma entidade terrestre e mortal.

  Lover, You Should’ve Come Over é o clímax, aquilo porque ansiávamos e, ao mesmo tempo, evitávamos. É impossível conter as lágrimas, e estamos na presença de uma das faixas mais emotivas que existem. Buckley encontra-se num sofrimento impossível de suportar, e só uma grande mestria na expressão de sentimentos é que faz com que seja possível passar para as palavras e sons o estado de espírito de um ser humano profundamente arrependido e desesperado. A música assume-se como uma súplica, o estado máximo de sofrimento.

  Impossível de suportar o sofrimento, entramos num estado de coma induzida por Corpus Christi Carol, uma lamentação a Deus pelo sucedido, uma penitência. Acabou, não à volta a dar, mas a esperança mantêm-se inevitavelmente. Eternal Life rebenta nos nossos ouvidos como a mais raivosa das canções do álbum, onde Buckley faz uma agressiva crítica à sociedade e aos seus valores. Dream Brother é a conclusão perfeita, o resumo e a análise de tudo o que se passou. A sua sonoridade, fortemente influenciada por músicas árabes, acaba com a realidade e transporta-nos novamente para o plano do sonho. Estamos prontos a acordar em Mojo Pin, num círculo de sofrimento interminável. Uma obra-prima.

Nota: 10/10

                                  Grace



                   Lover You Should've Come Over


    Texto: João Afonso

Sem comentários:

Enviar um comentário