segunda-feira

Mário Laginha Trio



Mário Laginha Trio
Hot Club de Portugal, Praça da Alegria
Dia 17 de Fevereiro de 2012







  Lisboa já se tinha esquecido das mágicas noites a que assistia sempre que se fazia música no velhinho Hot Club. Aquele fatídico incêndio não destruiu apenas um edifício. Desapareceu, em cinzas, o mais antigo clube de Jazz da Europa, um lugar mítico, ficando apenas as recordações de todas as memoráveis sessões onde grandes nomes, como Count Basie Orchestra ou Sarah Vaughan, brilharam. Essas estão intactas e regressam novamente ao imaginário de qualquer melómano, agora que o novo espaço (ainda na Praça da Alegria) reabriu.

  Não haverá, de certo, melhor maneira de comemorar este marco na música jazz portuguesa do que convidar para uma actuação o mais talentoso e reconhecido pianista português, Mário Laginha, que se fez acompanhar pelo seu trio, integrado por Alexandre Frazão, na percussão, e Bernardo Moreira, no contrabaixo.

   O mote para o concerto é o seu mais recente trabalho, Mongrel, muito elogiado pela crítica, chegando a receber o prémio de melhor álbum do ano pela Sociedade Portuguesa de Autores e RTP. O título do disco faz-nos referência a uma mistura de culturas e tradições, e é precisamente isso que acontece, numa  “espécie de heresia a transbordar respeito pelo compositor", diz Mário Laginha, referindo-se a Frédéric Chopin e aos seus temas, que são revisitados, neste trabalho, numa abordagem mais jazzística, chegando a alcançar, por vezes, a pop.

  A sala encontrava-se cheia quando ainda faltava cerca de uma hora para o início da actuação. Avisaram-me logo à porta: “Se quiser dê uma vista de olhos à lotação da sala, e, se mesmo assim quiser entrar, não nos responsabilizamos pelo eventual desconforto.” Decidi entrar. Uma ocasião destas não pode ser desperdiçada. O misticismo, que sempre acompanhou a antiga sala, encontra-se intacto. Ao entrar, vislumbro alguns nomes grandes da música portuguesa, como Rui Veloso, numa atitude humilde de presenciar o que de melhor se faz em Portugal na área da música.

  Amontoados, apertados, desconfortáveis mas ansiosos, os ouvintes lá iam esperando a chegada dos artistas. Por volta das 22h15, Alexandre Frazão e Bernardo Moreira entram triunfalmente no palco, seguidos por um tímido Laginha, como é já seu hábito, que não gosta muito de dar nas vistas. Mal se senta ao piano e começa a tocar o tema introdução, ficaram por terra todas as pretensões de passar despercebido. O touché com que atinge as teclas do piano é magistral. Existe um lirismo em cada nota que imagina na sua cabeça e executa através do teclado. Rapidamente se pode verificar os olhares estupefactos à medida que a velocidade das modulações e improvisos começam a surgir. Ora se tocar Chopin é extremamente complexo, imagine-se improvisar sobre o mesmo!

  Laginha é a estrela, sem dúvida, mas os acompanhantes não lhe ficam atrás. Bernardo Moreira é o menos brilhante dos três, mas, no entanto, é o mais consciente rítmica e harmonicamente. Genial na maneira como interpreta as dinâmicas estabelecidas por Laginha, exerce um cargo, por vezes ingrato, de ser a ponte entre o pianista e outro dos protagonistas. Falo, portanto, de Alexandre Frazão, que deu um espectáculo dentro do próprio espectáculo. Irrepreensível no sentido rítmico, fantástico na maneira como extrai cada pormenor sonoro do seu kit, aparentemente rudimentar, de bateria. A química de banda é evidente, e não existe, de todo, qualquer tentativa de sobressair por parte de um dos músicos. Pelo contrário, existe aquele respeito, característico do jazz, pelo momento do colega.

  Numa actuação irrepreensível, onde, para além de temas de Chopin, foram apresentadas duas músicas inéditas (acabadas no dia anterior, confessou Laginha), o trio conseguiu agarrar o seu público de tal maneira que o encore teve direito a um solo de 10 minutos de Frazão que deixou a plateia ao rubro. Aplaudidos de pé, o sorriso estava estampado na cara dos músicos, espelho de uma performance que confirma o regresso das vibrantes noites ao Hot Club.


     Texto: João Afonso

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