É
difícil dizer qual álbum de Brand New os lançou na ribalta. A verdade é que,
até agora, nenhum o fez verdadeiramente. Mas se ouvíssemos todos os seus
álbuns, não notaríamos apenas o crescimento e maturidade, tanto na música como
nas letras, gradualmente adquiridos; veríamos que The Devil and God Are Raging
Inside Me é, muito provavelmente, o álbum mais bem conseguido de Brand New.
Sowing
Season (Yeah) é a faixa de abertura.
O género de música que deixa logo o pressentimento da iminente presença de uma
melancolia infinita ao longo de todo o álbum. Composta por Lacey, vocalista
(que desde o primeiro álbum da banda tem provado ser um poeta no verdadeiro
sentido da palavra), juntamente com o guitarrista Vin Accardi, Sowing Season fala-nos do que já se
perdeu, daquilo que faz falta e não se tem, da dor que o fim nos traz e que a
verdade carrega. Se é verdade que é essencial que a primeira faixa de um álbum
consiga prender os ouvintes, Sowing
Season fá-lo, claramente. A agressividade que a música vai gradualmente
ganhando prende-nos ainda mais. Não dá para abandonar o navio agora. The Show Must Go On.
… And it does go on, certamente. Millstone é a segunda faixa do álbum, e apesar de não ser tão
forte quanto a primeira, é forte o suficiente para não apagar a vontade de
continuar a ouvir o álbum. Sendo, com toda a certeza, das músicas mais
comerciais do álbum, é fácil gostar de Millstone
– nem que seja pela letra, na qual qualquer pessoa se consegue rever com facilidade.
Millstone é a mudança. É o olhar em
introspectiva e ver que já não somos quem fomos outrora. É o olhar para trás e
pensar nos erros, deixar que o arrependimento nos envolva, à medida que nos
apercebemos de tudo o que nos fugiu por entre os dedos. É, por 4 minutos e 17
segundos, o deixar de saber quem somos, na verdade.
A
partir da terceira faixa, o álbum começa a ganhar uma força inqualificável – e
apesar de este ser um facto do qual só nos apercebemos depois de ouvir o álbum
repetidamente, depois de ganharmos a sensação de familiaridade com as músicas,
é possível apercebermo-nos de que o álbum está a entrar, triunfante, no seu
auge.
Jesus (ou Jesus Christ) não nos faz perder a melancolia que se apoderou de
nós no início do álbum – Torna-a consistente. Mais calma do que as duas que a
antecedem, com apenas pequenos laivos de agressividade, Jesus vale muito pela letra, a fazer contraste com a voz de Lacey,
que transporta naturalmente uma tristeza muito característica – somos
confrontados com o medo, acima de tudo. O medo do que se segue depois de
partirmos deste mundo. O medo de ficarmos sozinhos numa cama fria e grande
demais para apenas um corpo. É certamente a música mais melancólica do álbum. E
aquela que nos faz, agora com todas as certezas, querer continuar a ouvir o
álbum.
Degausser é o nome da quarta faixa. Como descrevê-la sem
deixar de fora a sua essência? Parece uma tarefa um tanto ou quanto impossível.
Se Jesus consolida os sentimentos
que nascem em nós, Degausser fá-los
crescer, confere-lhes uma magnitude suprema. Degausser é o travo amargo dos arrependimentos que nos tiram o sono
à noite. É o peso no peito que nos impede de respirar, ao mesmo tempo que
consegue ser o adeus aos demónios que trazemos connosco e aos fantasmas que
seguem todos os nossos movimentos.
Segue-se
Limousine. Quem ouve a
música pela primeira vez, raramente conhece a história por detrás desta. Limousine
é uma alusão à morte de Katie Flynn, uma criança de 7 anos. O condutor da limusine
onde Katie se encontrava tinha bebido, pelo que se sabe, mais de 44 bebidas, e
um acidente ceifou a vida da menina. Toda a letra gira à volta desse facto, e
cada verso transporta consigo uma mensagem muito emotiva, às vezes em demasia.
É também das músicas mais emocionantes do álbum. Com uma introdução muito
calma, a música vai ganhando força, que depois perde, para a tristeza profunda,
e que volta a ganhar, para conferir a Limousine um fim memorável.
E,
por falar em memorável, o verdadeiro auge do álbum acaba de chegar.
You Won’t Know é o expoente máximo da
mágoa, da fúria, do desespero – toda a dor que a música traz consigo passa a
ser a nossa dor. A letra começa a esconder-se num canto qualquer da nossa alma,
e alastra-se para a totalidade de quem somos. Cada palavra toca na nossa vida
como um dedo toca numa ferida aberta. You
Won’t Know é como chegar ao fim do dia e não restar nada a não ser a dor. A
dor de ter que se ser.
Welcome to Bangkok acalma tudo aquilo que You Won’t Know despoletou, pelo menos durante o primeiro minuto e
meio. Tudo regressa, no entanto – ainda que não com tanta intensidade. Não
sendo das faixas mais fortes do álbum, é uma boa instrumental.
Segue-se
Not the Sun, muito mais cheery do
que qualquer outra música do álbum, até agora. A melancolia que se tem mantido
presente esbate-se um pouco aqui, nunca desaparecendo por completo. Mas a
letra, não demasiado feliz, nem exageradamente triste, aliada ao ritmo, à
sonoridade, faz com que seja a música ideal para se ouvir, ironicamente, num
dia solarengo, onde a má disposição e a tristeza não tenha tomado conta de nós.
Luca, a nona faixa, encarrega-se de nos lembrar de que a
tristeza não é algo de que nos consigamos ver livres tão facilmente assim. Tal
como em algumas músicas anteriores, Luca é sobre a incerteza do que acontece
quando partimos: A nossa falta será sentida? Teremos deixado marcas
suficientemente profundas em alguém? Não foi a nossa passagem algo meramente
superficial nas vidas das pessoas com que lidámos? Luca faz-nos as perguntas, sem nos oferecer as respostas.
Untitled quase passa despercebida no meio do álbum – é, no
entanto, uma instrumental melhor do que Welcome
to Bangkok. Se ignorarmos as palavras, meio sussurradas, I can never love you, I can never reach you,
quase somos invadidos por uma sensação de calma, de paz, de equilíbrio, de chill. Faz desejar que a música dure
mais, que não acabe por ali, que haja uma forma de prolongar aquela sensação,
que, no fundo, já sabemos efémera.
The Archer's Bows Are Broken volta a trazer-nos a boa-disposição de Not the Sun;
talvez até com mais intensidade. Não é, também, das melhores faixas do álbum,
mas não falha no propósito de aliviar a tensão causada pelas poderosas Degausser ou You Won’t Know.
O
álbum acaba da mesma forma que começa. Handcuffs,
a última faixa, marca o retorno, uma vez mais, da melancolia inevitável. É,
juntamente com Jesus, a música mais
triste. A que mais facilmente nos arranca lágrimas, talvez por a agressividade
não ser tão acentuada como é noutras músicas.
Passam-se os últimos quatro minutos e onze segundos do álbum – mas a
tristeza fica.
Não poderia nunca ir embora agora.
Nota: 10/10
Degausser
Limousine
You Won't Know
Texto: Leonor Fernandes
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