quarta-feira

Brand New – The Devil and God are Raging Inside Me (2006)


É difícil dizer qual álbum de Brand New os lançou na ribalta. A verdade é que, até agora, nenhum o fez verdadeiramente. Mas se ouvíssemos todos os seus álbuns, não notaríamos apenas o crescimento e maturidade, tanto na música como nas letras, gradualmente adquiridos; veríamos que The Devil and God Are Raging Inside Me é, muito provavelmente, o álbum mais bem conseguido de Brand New.

Sowing Season (Yeah) é a faixa de abertura. O género de música que deixa logo o pressentimento da iminente presença de uma melancolia infinita ao longo de todo o álbum. Composta por Lacey, vocalista (que desde o primeiro álbum da banda tem provado ser um poeta no verdadeiro sentido da palavra), juntamente com o guitarrista Vin Accardi, Sowing Season fala-nos do que já se perdeu, daquilo que faz falta e não se tem, da dor que o fim nos traz e que a verdade carrega. Se é verdade que é essencial que a primeira faixa de um álbum consiga prender os ouvintes, Sowing Season fá-lo, claramente. A agressividade que a música vai gradualmente ganhando prende-nos ainda mais. Não dá para abandonar o navio agora. The Show Must Go On.

And it does go on, certamente. Millstone é a segunda faixa do álbum, e apesar de não ser tão forte quanto a primeira, é forte o suficiente para não apagar a vontade de continuar a ouvir o álbum. Sendo, com toda a certeza, das músicas mais comerciais do álbum, é fácil gostar de Millstone – nem que seja pela letra, na qual qualquer pessoa se consegue rever com facilidade. Millstone é a mudança. É o olhar em introspectiva e ver que já não somos quem fomos outrora. É o olhar para trás e pensar nos erros, deixar que o arrependimento nos envolva, à medida que nos apercebemos de tudo o que nos fugiu por entre os dedos. É, por 4 minutos e 17 segundos, o deixar de saber quem somos, na verdade.
A partir da terceira faixa, o álbum começa a ganhar uma força inqualificável – e apesar de este ser um facto do qual só nos apercebemos depois de ouvir o álbum repetidamente, depois de ganharmos a sensação de familiaridade com as músicas, é possível apercebermo-nos de que o álbum está a entrar, triunfante, no seu auge. 

Jesus (ou Jesus Christ) não nos faz perder a melancolia que se apoderou de nós no início do álbum – Torna-a consistente. Mais calma do que as duas que a antecedem, com apenas pequenos laivos de agressividade, Jesus vale muito pela letra, a fazer contraste com a voz de Lacey, que transporta naturalmente uma tristeza muito característica – somos confrontados com o medo, acima de tudo. O medo do que se segue depois de partirmos deste mundo. O medo de ficarmos sozinhos numa cama fria e grande demais para apenas um corpo. É certamente a música mais melancólica do álbum. E aquela que nos faz, agora com todas as certezas, querer continuar a ouvir o álbum. 

Degausser é o nome da quarta faixa. Como descrevê-la sem deixar de fora a sua essência? Parece uma tarefa um tanto ou quanto impossível. Se Jesus consolida os sentimentos que nascem em nós, Degausser fá-los crescer, confere-lhes uma magnitude suprema. Degausser é o travo amargo dos arrependimentos que nos tiram o sono à noite. É o peso no peito que nos impede de respirar, ao mesmo tempo que consegue ser o adeus aos demónios que trazemos connosco e aos fantasmas que seguem todos os nossos movimentos. 

Segue-se Limousine. Quem ouve a música pela primeira vez, raramente conhece a história por detrás desta. Limousine é uma alusão à morte de Katie Flynn, uma criança de 7 anos. O condutor da limusine onde Katie se encontrava tinha bebido, pelo que se sabe, mais de 44 bebidas, e um acidente ceifou a vida da menina. Toda a letra gira à volta desse facto, e cada verso transporta consigo uma mensagem muito emotiva, às vezes em demasia. É também das músicas mais emocionantes do álbum. Com uma introdução muito calma, a música vai ganhando força, que depois perde, para a tristeza profunda, e que volta a ganhar, para conferir a Limousine um fim memorável.
E, por falar em memorável, o verdadeiro auge do álbum acaba de chegar.  

You Won’t Know é o expoente máximo da mágoa, da fúria, do desespero – toda a dor que a música traz consigo passa a ser a nossa dor. A letra começa a esconder-se num canto qualquer da nossa alma, e alastra-se para a totalidade de quem somos. Cada palavra toca na nossa vida como um dedo toca numa ferida aberta. You Won’t Know é como chegar ao fim do dia e não restar nada a não ser a dor. A dor de ter que se ser.  

Welcome to Bangkok acalma tudo aquilo que You Won’t Know despoletou, pelo menos durante o primeiro minuto e meio. Tudo regressa, no entanto – ainda que não com tanta intensidade. Não sendo das faixas mais fortes do álbum, é uma boa instrumental.

Segue-se Not the Sun, muito mais cheery do que qualquer outra música do álbum, até agora. A melancolia que se tem mantido presente esbate-se um pouco aqui, nunca desaparecendo por completo. Mas a letra, não demasiado feliz, nem exageradamente triste, aliada ao ritmo, à sonoridade, faz com que seja a música ideal para se ouvir, ironicamente, num dia solarengo, onde a má disposição e a tristeza não tenha tomado conta de nós. 

Luca, a nona faixa, encarrega-se de nos lembrar de que a tristeza não é algo de que nos consigamos ver livres tão facilmente assim. Tal como em algumas músicas anteriores, Luca é sobre a incerteza do que acontece quando partimos: A nossa falta será sentida? Teremos deixado marcas suficientemente profundas em alguém? Não foi a nossa passagem algo meramente superficial nas vidas das pessoas com que lidámos? Luca faz-nos as perguntas, sem nos oferecer as respostas. 

Untitled quase passa despercebida no meio do álbum – é, no entanto, uma instrumental melhor do que Welcome to Bangkok. Se ignorarmos as palavras, meio sussurradas, I can never love you, I can never reach you, quase somos invadidos por uma sensação de calma, de paz, de equilíbrio, de chill. Faz desejar que a música dure mais, que não acabe por ali, que haja uma forma de prolongar aquela sensação, que, no fundo, já sabemos efémera.

The Archer's Bows Are Broken volta a trazer-nos a boa-disposição de Not the Sun; talvez até com mais intensidade. Não é, também, das melhores faixas do álbum, mas não falha no propósito de aliviar a tensão causada pelas poderosas Degausser ou You Won’t Know.

O álbum acaba da mesma forma que começa. Handcuffs, a última faixa, marca o retorno, uma vez mais, da melancolia inevitável. É, juntamente com Jesus, a música mais triste. A que mais facilmente nos arranca lágrimas, talvez por a agressividade não ser tão acentuada como é noutras músicas.  Passam-se os últimos quatro minutos e onze segundos do álbum – mas a tristeza fica.
Não poderia nunca ir embora agora. 


Nota: 10/10

Degausser


 Limousine



 You Won't Know



Texto: Leonor Fernandes
 

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