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segunda-feira


Bon Iver – Bon Iver, Bon Iver (2011)



  Qualquer músico, numa dada altura da sua carreira, depara-se com um velho dilema: “Fazer música para mim que pode agradar ao público, ou fazer música para o público que me pode agradar?”. A segunda via é, claramente, a que a maior parte dos artistas conhecidos toma. Mas ser um músico conhecido é efémero. Aqueles que permanecerão para sempre na história, que conquistaram um lugar de estrelas, foram inovadores, arrojados e irreverentes: tomaram, portanto, a primeira via.

  Justin Vernon, o “faz tudo” dos Bon Iver, é um desses músicos sem medo de fazer a música de que gostam. Estreou-se no ano de 2008 com o álbum For Emma, Forever Ago, que não passou despercebido a muito gente, especialmente críticos e fãs da cena indie folk. Diz-se que Vernon enclausurou-se durante três meses numa cabana, em Wisconsin, depois de uma desilusão amorosa, e, da sua arte, nasceu um álbum fantástico, intimista, que torna a tristeza num lugar que nos apetece procurar ouvindo Bon Iver.

  Ora, se For Emma, Forever Ago nos faz procurar esse lugar e lembra o inverno (Bon Iver vem de Bon Hiver – Bom Inverno em francês), Bon Iver, Bon Iver, o novo trabalho, lembra-nos o Verão, e existe como que um desabrochar daquela flor que estava murcha no primeiro álbum. A estação fria deu lugar ao calor. Os falsetes mantêm-se, mas, de um álbum minimalista, composto (quase) somente por uma guitarra, voz e batida, a sonoridade evoluiu para uma imponente sinfonia de sons magistralmente ordenados por Vernon.

  Perth, a faixa de abertura, denuncia aquilo que é a grande evolução dos Bon Iver. A guitarra do frontman, já tradicional, abre as hostes, tal como acontecia com o álbum precedente. Porém, inesperadamente, é a bateria (uma das grandes estrelas do trabalho) que marca o início deste trabalho épico. Um som crescido, maduro, inteligente e arrojado. Nota-se que existe um aprumado trabalho em todos os pequenos detalhes. A audição não é fácil. À primeira fica-se surpreso, à segunda não se gosta, à terceira começa-se a reparar nos pormenores, e só à décima vez que se escuta o álbum é que se chega à conclusão que estamos perante uma obra-prima. Os Bon Iver deixaram de trabalhar exclusivamente no campo da Folk. Este trabalho envolve muito mais do que isso. Sorri à Pop, acena ao Synth dos anos 80 e cumprimenta efusivamente o Rock.

  Minnesota, WI é uma continuação de Perth, e por isso segue a contínua apresentação dos instrumentos, num ritmo ondulante, nunca previsível e nem sempre convencional. Feitas as apresentações, chega o ponto alto (talvez o maior) do álbum. Holocene é das melhores músicas compostas no novo século. São estas preciosidades escondidas no meio da música que fazem valer a pena viver a vida e vasculhar os recantos da arte. O dedilhar de guitarra característico está lá, bem como os falsetes. A música lança-nos para uma odisseia de sons, somos transportados para uma dimensão diferente. É impossível não nos comovermos a ouvir tal beleza. “… and at once I knew, I was not magnificient”, diz Vernon a certa altura, mas a verdade é que aquilo que estamos a escutar é magnífico.

  Towers é a ressaca da música anterior e é um daqueles pontos do álbum que esboça um maior sorriso à pop com requintes de country. Não é genial, mas assenta que nem uma luva na sequência do álbum, como se preparasse a chegada de Michicant. Nesta faixa, as vozes são usadas de uma maneira áurea, que nos transporta num passeio celeste, calmo e reconfortante, com destino a Hinnom, TX, um interlúdio que nos permite assentar bem os pés no chão. A aterragem é feita através da voz grave de Vernon, mas rapidamente nos lembramos da fantástica jornada que tivemos até agora com os vislumbres dos falsetes já conhecidos. Com a belíssima Wash., somos de novo elevados a uma dimensão superior, e podemos prever que se aproxima algo de fantástico, de novo. Sentimos a palpitação a crescer, o sorriso é impossível de disfarçar, bem como o deleite ao ouvir tão magnífica obra de arte.

  O clímax do álbum chega com a já esperada (inconscientemente) Calgary. Se Skinny Love (single do primeiro álbum dos Bon Iver) é o passado e Holocene o presente, Calgary denuncia aquilo que será o futuro da banda. Apetece gritar a plenos pulmões o esboço de refrão, apetece que esta seja a banda sonora da nossa vida, que nos acompanhe por toda a parte. Calgary dá-nos a conhecer o mundo que não podemos presenciar no dia-a-dia. O medo vai-se apoderando de nós à medida que percebemos que a nossa jornada em Bon Iver, Bon Iver está prestes a acabar. Lisbon, OH é o despertar do sonho, existe uma certa tristeza e nostalgia. O que é bom acaba sempre depressa. Mas Justin Vernon tem ainda uma surpresa preparada para o ouvinte. Beth/Rest é a improvavél faixa que encerra este genial álbum. Porque depois de qualquer viagem ficam as boas memórias, esta música apela-nos exactamente a isso, ao som dos sintetizadores que parecem saídos de uma música dos anos 80.

  Termina a viagem, acabou o sonho. A vida real não é perfeita, existem demasiados problemas que nos impedem de ser felizes. No entanto, álbuns como este fazem-nos começar uma nova viagem, onde tudo é perfeito. A felicidade encontra-se em Bon Iver, Bon Iver.

Nota: 10/10

                                   Holocene


                            Calgary

    Texto: João Afonso




Capitão Fausto - Gazela (2011)




  O que acontece se juntarmos os Tame Impala a José Cid? O resultado é uma das mais agradáveis surpresas do ano de 2011, o fantástico álbum de estreia dos Capitão Fausto: Gazela. São 5 jovens, amigos de infância, que se juntaram para formar uma, inicialmente, banda de covers. Houve química de banda e resolveram prosseguir o bom trabalho. Uma proposta irrecusável de trabalho em Ibiza levou-os à descoberta de terras espanholas, e permitiu-lhes amadurecer enquanto conjunto e modelar o seu corpulento Indie Rock, com laivos de Rock Progressivo.

  O seu EP de estreia tinha profetizado aquilo que se viria a concretizar em Gazela. Exímios executantes, são inteligentes na forma como usam os coros de “nananas” que fazem lembrar os Beatles, bem como na construção de um estilo que sorri a bandas de renome como Arctic Monkeys, Franz Ferdinand ou The Strokes. A voz crua de Tomás Wallenstein, o baixo electrizante de Domingos Coimbra, os teclados vibrantes de Francisco Ferreira, os riffs poderosos de Manuel Palha e a energia da bateria de Salvador Seabra fazem com que os seus ouvintes queiram bater o pé, saltar, dançar, enfim… festejar!

  Música Fria inicia da melhor maneira o álbum. Uma música tímida, que introduz o ouvinte ao que se irá passar a seguir. Não é explosiva, mas tem os já famosos coros dos Capitão Fausto. Podemos assistir a uma espécie de aquecimento para a seguinte música. Falo pois de Teresa, o single do álbum, uma electrizante canção que traz consigo o que de melhor existe na cena Indie Rock. Os teclados fazem-se ouvir sonoramente, o refrão fica facilmente na cabeça e a dança executada no videoclip é irresistível. É possível descobrir o mesmo glamour da voz de Alex Krapanos, dos Franz Ferdinand, em Tomás Wallenstein, bem como o ritmo festivo de Fabrizio Moretti, dos Strokes, na bateria de Salvador Seabra. Febre é uma digna sequência de Teresa. Igualmente festiva, é contagiante no seu refrão preenchido por “nanana”. Ao vivo, esta deve ser uma das músicas que melhor resulta. É impossível não querer dançar. Verdade é a faixa que se segue, e mantêm o tom que se impôs ao longo do álbum. A esta altura está demonstrada toda a maturidade que os Capitão Fausto possuem, invulgar numa banda tão jovem.

  Super Nova é o ponto alto do álbum. É uma faixa que transitou do EP para o seu álbum de estreia, mas demonstra toda a capacidade musical que estes cinco lisboetas possuem. Contagiante, alegre, colorida, é uma música que relembra que em Portugal existem muitas jovens bandas de valor, que, com algum crédito, podem ir longe.

  Gazela, faixa que dá nome ao álbum, é o momento intimista do álbum, e, talvez, o seu calcanhar de Aquiles. Funciona como um interlúdio, uma calmaria no meio de tanta festividade, uma espécie de intervalo, mas, no entanto, fica a sensação de que está a mais neste trabalho.

  Santa Ana rapidamente remedeia o erro cometido, e introduz novamente o tom alegre e popular que os Capitão Fausto foram construindo ao longo do álbum. Em Sobremesa percebe-se as referências que a banda faz a José Cid e ao seu Rock Progressivo. Uma música madura que poderá apontar caminho para o que será o futuro desta jovem banda. Ora a influência deste grande nome da música portuguesa é notória, pelo menos a julgar pela faixa intitulada Zécid, uma clara homenagem ao compositor português. Faz lembrar, de facto, aqueles tempos de 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte.

  Raposa funciona como a despedida do trabalho de estreia da banda, com um piscar de olho, pois, de certo, não se ficarão por aqui. Capitão Fausto são a prova viva de que existe boa música em Portugal, e que está a surgir uma nova geração de artistas que têm qualidade suficiente para fazer face aos monstros internacionais da música. Viva o Capitão!

Nota: 7/10




                             Teresa




                            Super Nova


   Texto: João Afonso

quinta-feira

Pepe Deluxé - Queen of The Wave (2012)



1


Queenswave



4:54
2A Night and a Day4:04
3Go Supersonic4:44
4Temple of Unfed Fire2:48
5Contain Thyself3:52
6Hesperus Garden4:09
7Grave Prophecy4:33
8In The Cave1:51
9My Flaming Thirst3:49
10Iron Giant2:22
11The Storm3:43
12Riders on the First Ark7:18



Pop Quizz. Estão prontos? O que dá ao se misturarem o "The ArchAndroid" da Janelle Monáe, surf rock dos anos 60, os temas do James Bond, uma ópera de Wagner e uma história sobre a Atlântida ? Se a vossa resposta é: "não faço ideia", então claramente nunca ouviram o mais recente álbum dos Pepe Deluxé intitulado de "Queen of the Wave".

Retirando influências daqui e dali do mundo da pop, mas conseguindo roçar no baroque, "Queen of the Wave" apresenta-se como a história da queda da Atlântida, o mítico continente que remonta aos contos de Platão. As influências do rock psicadélico, a boa utilização de "hooks", a magnitude e o optimismo incomparável deste álbum, lançado dia 30 de Janeiro de 2012, fazem-no um dos mais fortes do ano até agora. Também não magoa ter umas faixas-interlúdios extremamente atmosféricas ("In the Cave") e que agarram a nossa atenção logo a primeira vez que as ouvimos ("Temple of the Unfed Fire" e "Iron Giant")

A faixa de abertura "Queenswave" é a minha preferida. A melodia é calma e resguardada mas intoxicante, enquadrando elementos de electrónica, um toque de sintetizadores e até, parece-me, uma flauta de pã. A voz masculina praticamente não se ouvirá mais ao longo do álbum, o que é uma pena.

Já "A Night and a Day", "Hesperus Garden", "My Flaming First" e "Go Supersonic" não tem medo de nos apresentar as suas influências à cabeça com as três primeiras a fazerem lembrar Janelle Monáe, e a última a retira uma fatia do sunshine pop de décadas passadas. Algumas falham como "My Flaming Thirst", que grita a plenos pulmões PONHAM-ME NUMA SOUNDTRACK DO JAMES BOND. Infelizmente acaba por perder o sabor. "A Night and a Day" é algo banal, mas "Supersonic" e "Garden" sao refrescantes, acabando a primeira por 'descambar' numa total ópera Wagneriana.

"Contain Thyself" faz mesmo lembrar um qualquer cântico céltico, com especial atenção para as melodias vocais. A profética "Grave Prophecy" tem um interlúdio lindíssimo, anunciando a queda do mítico continente, e no geral é um dos pontos mais fortes do álbum. O final da música é um clímax de xilofones, bateria, sintetizadores e coros.

O relato da queda recai sobre a épica "The Storm" cuja magnitude, deixa dúbia o enquadramento deste álbum no campo pop. Mesmo assim com um solo de surf rock no meio e com camada sobre camada de instrumentalização, a sua grandeza é inegável, fazendo-nos de facto sentir que algo urgente está a acontecer.
Para acabar temos uma leva de humor com a melancólica "Riders of the First Ark" que faz regressar a voz masculina:

"All the fauna with two horns
 He forgot the unicorns"

E é por isto que não temos unicórnios hoje em dia senhoras e senhores : O povo da Atlântida durante a evacuação, quando o seu continente estava a ruir para debaixo do mar, esqueceu-se de trazer os unicórnios.

Prós: Nostálgico mas futurista, estranho mas familiar . Camadas de instrumentalização sem nunca perder de vista o surf/sunshine pop-rock que está na génesis do álbum. Divertido, optimista e curioso com uma magnitude 10 na escala de Richter em faixas como "The Storm" e "Go Supersonic".

Contras: Demasiado disperso em termos de estilos musicais. Algumas faixas gastam-se rapidamente. Encosta-se excessivamente à sombra das suas influências.

Faixas de destaque: "Queenswave" ; "Go Supersonic" ; "Hesperus Garden" ; "Grave Prophecy" ; "The Storm"

Pontuação: 8.1


Queenswave



Texto: João Carrilho